Subsídio para o reconhecimento da importância da história de Taubaté

Em 1532, chegou ao Brasil a expedição colonizadora de Martim Afonso de Sousa que, aportando no litoral do atual Estado de São Paulo, fundou a primeira vila do país, batizando-a de São Vicente. Como ficou registrado por Pedro Taques, trazia consigo quatrocentas pessoas para dar início à colonização no Brasil. Além de muita nobreza, alguns fidalgos da casa real, como foram: João do Prado – natural de Olivença. Pessoa de muito valor e prestígio na Capitania ocupou todos os cargos da governança da terra; chefe da entrada, em 1596, onde o cabo foi João Pereira de Sousa Botafogo; Luís de Góis com seus irmãos Pedro de Góis e Gabriel de Góis; Pedro Dias; Salvador Pires; Jorge Pires cavaleiro fidalgo; Domingos Leitão; Rui Pinto, cavaleiro fidalgo; Francisco Pinto, cavaleiro fidalgo, filhos de Francisco Pinto, cavaleiro fidalgo.

Outros muitos homens, desta qualidade com o mesmo foro e também com o foro de moços da Câmara, vieram com Martim Afonso de Sousa e todos ficaram povoando a vila de S. Vicente, como se vê melhor no mesmo livro 1º do registro das sesmarias.

Com muito trabalho, fibra e persistência teve início a colonização brasileira na região do litoral vicentino. Limitados entre o mar e as montanhas, colonos e jesuítas, movidos por objetivos diferentes, começaram a subir a Serra do Mar, seguindo as trilhas indígenas, o chamado “Caminho do Mar”, até alcançar o Planalto de Piratininga. Vencida a barreira representada pela serra do Mar, os colonizadores avançaram pelo planalto paulista.

Aziz Nacib Ab’Sáber, famoso geógrafo, nascido em São Luís do Paraitinga, assim definiu o Planalto de Piratininga: Para aqueles que vinham do litoral, através das densas matas da Serra do Mar e dos morros do reverso da serra, os primeiros descampados naturais estavam nas largas planícies do rio Tamanduateí: daí o nome Santo André da Borda do Campo.

Entretanto, no planalto de Piratininga já existia um aldeamento fundado por João Ramalho, náufrago português que se uniu à índia Bartira, filha do cacique Tibiriçá, da tribo dos Guaianases. Esse aldeamento passou a ser conhecido como Santo André da Borda do Campo. Foi a primeira povoação europeia distante do litoral, situada em local indeterminado entre os campos do planalto de Piratininga e a mata da serra de Paranapiacaba.

Começou a haver uma dicotomia de procedimentos entre os colonos e os padres jesuítas. Enquanto os primeiros saíam em busca dos indígenas para transformá-los em escravos para trabalharem em suas lavouras, os jesuítas saíam em busca dos indígenas para catequizá-los. Essa grande diferença de ações começou a criar sérios problemas entre os dois grupos.

Interessado em estabelecer um local onde pudesse catequizar os indígenas longe da influência dos homens brancos, o padre Manuel da Nóbrega, superior da Companhia de Jesus no Brasil, observou que uma região próxima, localizada sobre um planalto, seria o ponto ideal, então chamado de Piratininga.

Embora a busca da catequese sem a influência do homem branco fosse um objetivo, o que precipitou a mudança para o planalto foi a necessidade de resolver o problema de alimentação dos indígenas que estavam sendo doutrinados, como afirma o padre Anchieta: “Para sustento destes meninos, a farinha de pau era trazida do interior, da distância de 30 milhas. Como era muito trabalhoso e difícil por causa da aspereza do caminho, ao nosso Padre (padre Manuel da Nóbrega) pareceu melhor no Senhor mudarmo-nos para esta povoação de índios, que se chama Piratininga”.

Em janeiro de 1554, um grupo de jesuítas comandados pelo padre Manuel da Nóbrega e auxiliado pelo igualmente jesuíta José de Anchieta, chega ao planalto, auxiliado por João Ramalho. Com o objetivo de catequizar os índios que viviam na região, os jesuítas erguem um barracão de taipa de pilão, em uma colina alta e plana, localizada entre os rios Tietê, Anhangabaú e Tamanduateí, com a anuência dos chefes indígenas locais, como o cacique Tibiriçá. Em 25 de janeiro daquele ano, dia em que se comemora a conversão do apóstolo Paulo, o padre Manuel de Paiva celebra a primeira missa na colina. A celebração marcou o início da instalação dos jesuítas no local, e entrou para a história como o nascimento da cidade de São Paulo.

Dois anos depois, os padres erguem uma igreja – a primeira edificação duradoura do povoado. Em seguida, ergueram o colégio e o pavilhão com os aposentos.

Ao redor do colégio, formou-se uma pequena povoação de índios convertidos, jesuítas e colonizadores portugueses.

Em 1560, a população do povoado seria expressivamente ampliada, quando, por ordem de Mem de Ságovernador-geral da colônia, os habitantes da vila de Santo André da Borda do Campo são transferidos para os arredores do colégio. A vila de Santo André é extinta, e o povoado é elevado a esta categoria, com o nome de “Vila de São Paulo de Piratininga”. Por ato régio, é criada, no mesmo, ano, sua Câmara Municipal, então chamada “Casa do Conselho”. Em 1558, João Ramalho passou a governar a vila como alcaide-mor.

A dominação do colono, em detrimento das nações brasílicas, não foi nada fácil. Pela necessidade imediata e premente de mão de obra, foram organizadas as bandeiras escravistas que, embrenhando-se nas selvas, foram em busca dos indígenas para escravizá-los. Estes, por sua vez, revidavam com contínuos e ferozes ataques.

Em 1562, incomodados com a aliança entre tupiniquins e portugueses, os índios tupinambás, unidos na Confederação dos Tamoios, lançaram uma série de ataques contra a vila no episódio conhecido como Cerco de Piratininga. A defesa organizada por Tibiriçá e João Ramalho impede que os tupinambás entrem em São Paulo, e os obriga a recuar.

Ainda em 1590, com a iminência de um novo ataque, a cidade novamente se prepara com obras de defesa, e é claro que nesse ambiente cheio de incertezas a prosperidade se torna impossível.

Os frequentes surtos de pestes — bexiga (varíola), sarampo, febre amarela, disenterias (febres ou enfermidade dos catarros) –, os sucessivos conflitos entre os colonos e os jesuítas, a má distribuição e o mau uso das terras provocando, principalmente, o flagelo da fome, impulsionaram inúmeras levas de emigrações para regiões relativamente adjacentes à vila de São Paulo.

As terras compreendidas pela região valeparaibana faziam parte da Capitania de Itanhém e eram propriedades da Condessa de Vimieiro.

E assim, levas colonizadoras começam adentrar e transitar pela região do Vale do Paraíba. O murmúrio de que essa região seria o caminho para as terras auríferas começam a ser propaladas com muita intensidade.

Em 1596, o governador geral do Brasil, D. Francisco de Sousa, incumbiu Martim Correia de Sá da chefia de uma bandeira que, saindo do Rio de Janeiro, aportou em Parati, subiu a Serra do Mar e, por uma trilha indígena, alcançou a região valeparaibana. Desse ponto uniram-se a outra leva de bandeirantes que, vindos da vila de São Paulo, chefiados por João do Prado, tendo como Cabo João Pereira de Sousa Botafogo. Essa leva de homens bravios e destemidos atravessou a garganta do Piracuama e prosseguiu em direção à lendária Sabaraboçu. De uma trilha indígena esse caminho transformou-se em uma antiga estrada que, quando se achou ouro nas Gerais, foi usada como escoadouro do metal precioso, ensejando a criação da Casa de Fundição em Taubaté.

Dois anos após o descobrimento do ouro esse caminho foi proibido pelas autoridades metropolitanas, tornando-se cada vez menos frequentado. Após o término do período aurífero, voltou a ser muito percorrido pelas tropas que faziam o tráfego e comércio entre a cidade do Rio de Janeiro e as vilas de Parati, Taubaté.

Esse caminho, anterior ao Caminho Velho, é conhecido pelos historiadores como o antiquíssimo caminho do Rio de Janeiro. Atualmente, é o único trecho da Estrada do Ouro em território paulista – a estrada que ligava a vila de Parati à vila de Taubaté. Estudado e mapeado, existe até hoje, com sua via carroçável por onde podem transitar carros e veículos afins.

Portanto, desde o século XVI, a região valeparaibana vinha sendo esquadrinhada na tentativa de se descobrir uma passagem para a região aurífera.

Iniciando o século XVII, começo de 1601, a região foi percorrida por André de Leão e sua bandeira, em busca, mais uma vez, da serra de Sabaraboçu.

Com a debandada das levas de pessoas em direção ao Vale do Paraíba, sua proprietária “ordenou o povoamento oficial das terras e sertões do Paraíba com distribuição, registro e posse de sesmarias. Essas terras foram desbravadas e povoadas por inúmeras famílias vindas da Vila de São Paulo capitaneadas pelo bandeirante Jaques Félix. As primeiras sesmarias doadas em nome de Jaques Félix e seus filhos Domingos Dias Félix e Belchior Félix datam de 1628. Posteriormente, pela provisão de “1636, foi autorizada a penetração do sertão de Taubaté a fim de descobrir minas, pacificar índios e demarcar as terras da Condessa de Vimieiro, Da. Mariana de Sousa Guerra, cujos limites até então eram desconhecidos”. Por nova provisão, datada de 1639, ficava estabelecida a doação de terras de sesmarias a todas famílias que mostrassem interesse em vir povoar a região. Assim, paulatinamente, ao longo desses anos formou-se um povoado que em 05 de Dezembro de 1645 foi elevado à condição de Vila. Surgiu então a primeira Vila da região valeparaibana: a VILA DE SÃO FRANCISCO DAS CHAGAS DE TAUBATÉ.

Como se vê, para o domínio mais abrangente da gênese da História de Taubaté se faz necessário recuar para os primórdios da história da cidade de São Paulo.

Taubaté é uma cidade que deve se orgulhar de sua história, pois coube a inúmeros taubateanos a honra de serem os protagonistas de fatos históricos, que fazem parte da história do Brasil nos seus três períodos políticos: Colonial, Imperial e Republicano. Em todos encontramos a participação atuante de taubateanos natos ou por adoção.

No Arquivo Histórico Felix Guisard Filho, de Taubaté, encontram-se inventários e testamentos dos descendentes daqueles primeiros povoadores do Brasil. Lá estão sobrenomes como: Prado, Gil, Dias, Grou, Pires, Leme, Bueno, etc…..os primeiros povoadores de Taubaté.

Entre esses primeiros povoadores encontram-se uma plêiade de bandeirantes tais como:

Antônio Delgado de Escobar – paulista, filho de João Delgado de Escobar e de sua mulher Beatriz Ribeiro, foi sertanista dos primeiros descobridores de ouro nas Minas Gerais. Faleceu nessa lida e foi inventariado em Taubaté, em 1708, estando casado com Inês Gil;

Antônio Delgado de Escobar (filho) – filho de Antônio Delgado de Escobar e de sua mulher Inês Gil, foi com seus pais, antes de 1698, para as Minas Gerais, largando as terras que tinha junto ao rio Una, na ambição de minerar ouro. Foi casado com Antônia Furtado e faleceu em Taubaté, em 1715;

Antônio de Faria Albernaz – capitão paulista que tomou parte na bandeira de 1636, chefiada por Antônio Raposo Tavares e que talou a região do Tape, no Rio Grade do Sul. Foi casado e faleceu em Taubaté, em 1663;

Bartolomeu da Cunha Gago – tomou parte da expedição de Fernão Dias Pais, ao encalço da Sabaraboçu, saída de São Paulo em 1674, e segundo alguns escritores foi o primeiro que nessa diligência cuidou de procurar ouro, tendo encontrado alguma porção em 1680. Foi casado com Maria Portes de El-Rey, filha de João Portes de El-Rey e faleceu em Taubaté, em 1685, deixando geração;

Carlos Pedroso da Silveira – famosíssimo personagem da História do Brasil Colonial, foi Provedor da Casa de Fundição de Taubaté. Faleceu assassinado numa emboscada, na vila de Taubaté

Domingos Rodrigues do Prado – certamente uma das mais características figuras do paulista antigo, altivo, insubmisso e desassombrado. Nasceu em Taubaté, filho do homônimo Domingos Rodrigues do Prado, o Longo e de Violante Cordeiro de Siqueira. Figura ente os primeiros descobridores de Minas Gerais. Faleceu em 1738, a caminho de São Paulo.

Esse rol poderia ser listado de A/Z mas, no momento não caberia um inventário completo.

A Vila de Taubaté tornou-se a base de penetração para as regiões além Mantiqueira, conhecida como os sertões dos Cataguás, de onde chegavam notícias da presença de metais preciosos. Reportando-se à coleção de notícias dos primeiros descobrimentos das minas na América, contidas no Códice Costa Matoso, sabe-se que no ano de 1693, Antônio Rodrigues de Arzão descobriu o tão procurado metal precioso.

A partir dessa data Taubaté tornou-se o centro irradiador de povoamento dos sertões mineiros.

Antônio Rodrigues Arzão, Carlos Pedroso da Silveira, Manoel Borba Gato, Manoel Mendes do Prado, Bartolomeu da Cunha Gago, Manuel Garcia Velho, Tomé Portes Del Rei, Antônio Garcia da Cunha, Bartolomeu Bueno da Silveira, João de Siqueira Afonso, Miguel Garcia velho e tantos outros, foram taubateanos ou moradores da Vila de Taubaté que semearam cidades nas Minas Gerais.

Seguiu-se, então, a fundação, por taubateanos ou moradores da Vila de São Francisco das Chagas – das seguintes cidades mineiras:

SABARÁ

Fundador:– Manuel Borba Gato

Ano da Fundação – entre 1674/1678

MARIANA – Cidade Irmã de Taubaté

Fundador:– Salvador Fernandes Furtado de Mendonça

Ano da Fundação – 16/07/1690

POUSO ALTO

Fundadores:– Antônio Delgado da Veiga

João da Veiga

Manuel Garcia Velho

Ano da Fundação – 1692

BAEPENDI

Fundadores:– Antônio Delgado da Veiga

João da Veiga

Manuel Garcia Velho

Ano da Fundação – 1693

CAMPANHA

Fundador:– Padre João de Faria Fialho

Ano da Fundação – 1693

PITANGUI

Fundador:– Bartolomeu Bueno de Siqueira

Ano da Fundação – 1694

ITABERAVA

Fundador:– Bartolomeu Bueno de Siqueira

Ano da Fundação – 1694

OURO PRETO

Fundadores:– Antônio Dias de Oliveira

P.e. João de Faria Fialho

Antônio Rodrigues Arzão

Ano da Fundação – 1698

ANTONIO DIAS

Fundador:– Antônio Dias de Oliveira

Ano da Fundação – entre 1701/1706

SÃO JOÃO DEL REI

Fundador:– Tomé Portes Del Rei

Ano da Fundação – 1701

TIRADENTES

Fundador:– João de Siqueira Afonso

Ano da Fundação – 1702

CARRANCAS

Fundador:– Serafim Correia

Ano da Fundação – 1703

PIRANGA

Fundador:– João de Siqueira Afonso

Ano da Fundação – 1704

AIURUOCA

Fundador:– João de Siqueira Afonso

Ano da Fundação – 1705/1706

CAXAMBU

Fundador:– Carlos Pedroso da Silveira

Ano da Fundação – 1706

ITABIRA

Fundadores:– Salvador Faria de Albernaz

Francisco Faria de Albernaz

Ano da Fundação – 1720

DELFIM MOREIRA

Fundadores:– Miguel Garcia Velho

Ano da Fundação – 1740

ITUTINGA

Fundadores:– Sertanistas taubateanos

Ano da Fundação – 1794

Em 1789, irrompe na Capitania de Minas Gerais, um movimento de natureza separatista propondo a instalação de uma república no Brasil. Esse movimento ficou conhecido como a Inconfidência Mineira.

Um dos mentores intelectuais desse movimento foi o Padre Carlos Correia de Toledo e Melo, vigário colado da freguesia de Santo Antônio da vila de São José. Era taubateano, filho do Timóteo Correa de Toledo, o fundador da Capela do Pilar. Teve seus irmãos, o Sargento Mor Luiz Vaz de Toledo Piza e Bento Cortez de Toledo, como companheiros nessa rebelião.

Padre Carlos foi degredado para Portugal, Luiz Vaz para a África (Cambebe) e Bento Cortez refugiou-se para o sul do país. Anos depois faleceu em Taubaté, como Vigário Colado da vila.

Em fins do século XVIII, Taubaté, “(…)Como São Paulo, sofreu de sangria demográfica, consequência do próprio bandeirismo que lhe dera projeção. Apesar disso, com vida econômica mais próspera, com posição já esboçada de capital da região”(…)

Em 1808, a família real portuguesa transferiu-se para o Brasil. E em 1815, o Brasil foi elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves.

Terminava aí o Período Colonial do Brasil e iniciava-se um novo período: Período Imperial.

Viajantes estrangeiros como Spix e Martius (1818), Saint-Hilaire (1822) e Debret (1827) deixaram registros sobre Taubaté, como sendo uma das mais importantes vilas de toda a província de São Paulo, onde os habitantes mostravam maior riqueza e abundância, assim como civilidade e cortesia.

Em 1822, o Príncipe Regente D. Pedro iniciou sua famosa caminhada até a cidade de Santos passando pelo Vale do Paraíba:

Jovens de Taubaté, pertencentes às suas mais prestigiosas famílias, incorporaram-se também à Guarda de Honra do Príncipe D. Pedro, a fim de lhe emprestar apoio político e proteção militar durante o decorrer de sua importante viagem à Província de São Paulo.

Taubateanos de nascimento, ou de adição, que estiveram presentes no momento da proclamação da Independência: Bento Vieira de Moura, Fenando Gomes Nogueira, Flavio Antônio de Andrade (natural de Paraibuna), Francisco Xavier de Almeida, João José Lopes (português de nascimento), Manoel Marcondes do Amaral, Rodrigo Gomes Vieira, Vicente da Costa Braga.”

Antecedendo a chegada do Príncipe Regente a Taubaté, em 21/08/1822, houve uma troca de correspondências entre os religiosos franciscanos, a Câmara de Taubaté e o clero secular expressando o apressam e admiração da gente taubateana à pessoa de D. Pedro. O portador da mensagem do clero secular foi o padre Antônio Moreira da Costa, que posteriormente tornou-se Vigário Capelão da Guarda de Honra e Comendador da Ordem de Cristo.

Para a chegada de Sua Alteza, o Príncipe Regente D. Pedro, grandes festas foram programadas em sua honra. Além da hospedagem, seguida de recepção na residência do Cônego Antônio Moreira da Costa, S.A.R. recebeu efusiva manifestação do povo. À noite, no cerimonial do beija-mão, desfilaram na presença real representantes da melhor sociedade local.

A rua até então denominada Rua do Gado, em sua homenagem passou a se chamar Rua do Príncipe, hoje Rua XV de Novembro. À sua Guarda de Honra, formada em Pindamonhangaba, foram incorporados mais oito elementos de escol da sociedade taubateana. Para atender o acolhimento de D. Pedro foram autorizados vários melhoramentos pela Câmara.

Em novembro de 1864, eclodiu a Guerra do Paraguai, que durou até 1870.

Brasil, Argentina e Uruguai formaram a Tríplice Aliança para combater o Paraguai, cujo ditador, Francisco Solano Lopes, almejando uma saída do seu país para Oceano Atlântico, pretendeu anexar terras dos países vizinhos. A causa para a entrada no Brasil no conflito foi o aprisionamento de um navio brasileiro no rio Paraguai e a invasão do Mato Grosso.

Em janeiro de 1865, o povo taubateano inicia sua demonstração de amor à pátria colocando à disposição seus serviços: cada um, da melhor maneira que podia.

Foi criado, no Rio de Janeiro, o Asilo dos Inválidos da Pátria, onde seriam recolhidos os servidores do país por sua velhice ou mutilação na guerra. Foi solicitado à Câmara de Taubaté um subsídio recolhido entre os munícipes. O então Presidente da Câmara, Sr. José Francisco Monteiro, propôs que se convidassem os fazendeiros do município para que auxiliassem nesse sentido. Ficou também, sob a responsabilidade da Câmara, providenciar números suficientes de voluntários da pátria.

Além da participação das várias classes sociais, os jornais da cidade também deixaram suas informações em artigos estimulando o patriotismo ao povo taubateano: “O Taubaté”, “Commercial”, “O Paulista”, “Imprensa Liberal”. Sendo uma imprensa livre, responsável e transparente, também denunciou os abusos havidos no momento do recrutamento dos voluntários da pátria.

Em retribuição aos serviços prestados pelos grandes produtores de café, de Taubaté, “D. Pedro II, Imperador do Brasil, como Grão Mestre das Ordens Honoríficas do Império, outorgou títulos nobiliárquicos, àqueles que a tais honrarias fizeram jus(…)”

Criou-se então, em Taubaté, os Titulares do Império:

Barão e Visconde de TremembéJosé Francisco Monteiro;

Barão e Visconde de MossoróJosé Felix Monteiro:

Barão Pereira de BarrosCel Jordão Pereira de Barros;

Barão de Taubaté – Antônio Vieira de Oliveira Neves;

Barão de Pouso FrioMariano José de Oliveira Costa;

Barão da Pedra NegraManoel Gomes Vieira;

Barão de JambeiroComendador David Lopes de Souza Ramos;

Conde de Santo AgostinhoD. José Pereira da Silva Barros.

Entre tantos vultos ilustres de Taubaté, sobressai aquele que ultrapassou os limites do município e do país: José Bento Monteiro Lobato, nascido em 1882: “Poucos escritores brasileiros participaram tão intensamente dos acontecimentos de suas época quanto Monteiro Lobato que foi advogado, fazendeiro, editor, empresário, escritor e jornalista dos mais atuantes na vida brasileira Ao seu espírito aberto e perquiridor tudo interessava, desde os problemas da Literatura às questões de Sociologia, Finanças, aço e petróleo.”

Lobato era um adolescente de 15 anos quando aconteceu outro importante fato na História do Brasil que também repercutiu em Taubaté: a Guerra ou Campanha de Canudos, detonada em 1897.

O Exército brasileiro enfrentou um movimento popular de fundo sócio religioso cujo líder foi Antônio Conselheiro.

Foi uma luta inglória para o Exército brasileiro.

Muitas outras informações sobre Canudos circularam pelos jornais de Taubaté, mas não cabe aqui esgotá-las.

Iniciou-se o século XX e Taubaté abriu-se para um robusto impulso industrial que, diga-se de passagem, teve início no crepúsculo do século XIX: Companhia de Gás e Óleos Minerais de Taubaté (1883) e a Companhia Taubaté Industrial – CTI (1891), Indústrias Reunidas Vera Cruz (1923), Companhia Fabril de Juta (1929), Companhia Predial de Taubaté (1932), Fábrica Doces Embaré, Corozita (botões), Refinarias de açúcar, Sociedade Extrativa Dolomia, Fábrica de Doces Francano, Fábrica de Louças, Usinas de Laticínios ao longo das décadas seguintes.

De 1939 a 1945, eclodiu a Segunda Grande Guerra Mundial e em 02 de julho de 1944, o Brasil iniciou sua participação no conflito com o envio do 1º escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB), sob o comando do General João Batista Mascarenhas de Morais.

Os jornais taubateanos, mais uma vez, começaram suas publicações sobre o acontecido.

No prédio onde funcionou o Externato São José, na Rua Visconde do Rio Branco, foi instalado a Legião Brasileira de Assistência – Centro Municipal de Taubaté – incumbido de prestar assistência às famílias dos convocados, que nessa época compreendiam 165 famílias fichadas, 80 das quais recebiam semanalmente suprimentos necessários à sua alimentação, além de assistência médica, remédios, peças de vestuário, etc., cuja necessidade seria comprovada pelas visitadoras em serviço.

Pela Imprensa escrita, durante um ano e seis meses, a sociedade taubateana acompanhou os feitos heroicos de seus expedicionários em campo de batalha. Isto gerou um acervo substancioso de informações impossível de ser esgotado nesta síntese da história de Taubaté.

Muito mais caberia ser explanado neste “Subsídio para o reconhecimento da importância da História de Taubaté”, pois é uma história que engloba muito mais fatos e acontecimentos aqui narrados e que deverão ser comemorados com muita satisfação.

No próximo dia 05 de Dezembro, desde presente ano de 2018, Taubaté completará 373 anos. Três séculos e 73 anos de uma existência de glória e heroísmo, orgulhosamente cantada e contada pelo seu povo.

Como sempre sói acontecer, deverá ser um dia de efusivas comemorações e júbilos, pois muito há a ser comemorado.

Pode-se afirmar, com certeza absoluta, não haver no Brasil cidade interiorana possuidora de maior profundidade histórica que Taubaté. E essa herança não se muda, não se subestima em troca de estatísticas financeiras ou prováveis “perdas” econômicas.

A maior perda ou prejuízo que possa haver é a não valorização de três séculos de uma história que não se compra, não se vende, não se leiloa, pois não existe dinheiro algum suficiente para se adquirir um grama, se possível fosse.

Que não prevaleça o capitalismo canibal que vem tentando destruir os valores humanos e mudando a percepção daquilo que tem valor histórico e cultural para um povo agraciado graciosamente com uma história tão rica que forjou a sua própria identidade.

Lia Carolina Prado Alves Mariotto é professora, pesquisadora e paleógrafa

A Praça

Qualquer cidade tem sua praça.

Aliás, para existir uma cidade, reconhecida como tal, já há longos anos, era necessário uma praça, uma cadeia, uma igreja e um cartório.

Em Taubaté foi assim. Jacques Felix fundou a comunidade e seus seguidores tiveram que tomar essas providências para que existíssemos legalmente.

A igreja foi a primeira obra. Uma capela, num local ainda existente, no interior da nossa Catedral. Ao lado da capela puseram alguns bancos onde os poucos moradores conversavam e decidiam sobre suas vidas.

A cidade cresceu e foi natural que a praça se modernizasse.

Vista aérea da Catedral (Foto: Acervo/Mistau)

As imagens que vejo por aí, nas inúmeras fotos existentes, mostram algo muito bonito, bem enquadrado, com bancos e canteiros e uma escultura de bronze de um bispo famoso.

A fisionomia foi se alterando, com fotos que já mostravam árvores grandes, com sombras e bancos que permitiam o descanso confortável para os longos papos, além das possibilidades de casais se enamorarem bem protegidos do sol.

A igreja já era a atual, grandiosa e bonita, compondo com os prédios existentes, um logradouro muito interessante.

Este panorama se consolidou com a história de nossa cidade. Todos os taubateanos com idade acima dos cinquenta anos se lembram das delícias que desfrutaram naquele lugar. Bares, restaurantes, bancas de jornal, bancas de frutas, lojas, bilhares, cinemas, bancos, farmácias, hotéis… cabia tudo isto naquele espaço onde gerações se formaram e estas gerações jamais se esquecerão do que lá viveram.

Há pessoas que entendem ser obrigatório acabar com uma coisa e construir outra no mesmo lugar para marcar sua passagem. Um dia, com a melhor das intenções, um prefeito resolveu mudar tudo. Furou o chão, construiu laguinhos com peixes coloridos, fez bancos de alvenaria e desfigurou completamente aquilo que era a nossa história e a nossa infância.

Ficou bonitinho, mas própria para uma Brasília ou uma Dubai, jamais para uma cidade antiga, cheia de tradições e de história.

Esta pracinha bonitinha envelheceu. Concluíram que aqueles buracos não eram apropriados e mudaram novamente. Um pouco pior. Então, sem nada.

Fizeram um palco útil, mas horroroso.

Agora tiraram o palco.

Há um propósito de restauração do centro da cidade. Algumas ruas já estão prontas, bonitas, bem feitas, com os requintes necessários, tais como acesso para cadeirantes e piso próprio para deficientes visuais.

Comemoração do centenário da elevação de Taubaté à categoria de cidade, na Praça Campos Salles, onde hoje existe um camelódromo (Foto: Acervo/Mistau)

Então, pensamos: por que não restaurar a antiga praça com as características da original, preservando a arquitetura, a história e os sonhos?

Entendo que seria pedir demais, levantar o preito de que toda a Praça do Mercado seja preservada e que ali volte a ser o núcleo antigo e histórico, revivendo a Bica do Bugre, dando à cidade um valor turístico e cultural muito maior, o que sempre representa fonte de arrecadação, como bem sabemos.

A Bica do Bugre (Foto: Acervo/Mistau)

Será que eu estou sonhando?

José Paulo Pereira nasceu em 1941 em Redenção da Serra. Estudou no Ginásio Taubateano e no Monteiro Lobato, em Taubaté. É formado em Medicina pela Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro. É membro efetivo da Academia Taubateana de Letras. Escreveu os seguintes livros: Redenção da Serra; Nós, os Pereiras; Redenção – o café, o leite e a água; Mulheres interessantes; Os Passarellis. É ativista defensor da preservação histórica do patrimônio, cultura e costumes de Redenção da Serra e Taubaté.

Bate papo sobre tombamento

Penso que seja hora de conversarmos um pouco sobre o que são bens tomados e por que o são. A lei que rege a questão do tombamento no Brasil é o Decreto-Lei Federal nº 25, de 30 de novembro de 1937. Podem ser tombados bens materiais ou imateriais, tangíveis ou intangíveis. Pode-se tombar um prédio, qualquer edifício ou monumento, uma pintura, um afresco, livros, fotografias, obras de arte (incluindo coleções inteiras), paisagens naturais e urbanas, e mesmo manifestações culturais e folclóricas. Pode ser tombado bem público ou privado.  Pode ser tombado somente em parte — por exemplo, a fachada de um edifício ou prédio, só uma imagem ou somente um altar de uma igreja.

O ato de tombamento é privativo do executivo e, diferente de ato vinculado, é dito um ato discricionário. Isto significa que o executivo não é obrigado a baixar um decreto tombando um bem, qualquer que seja ele.  Ele o faz porque quer. Por livre expressão de sua vontade. O proprietário do bem tombado pode dispor do bem como quiser. Inclusive alugar ou vender. Está obrigado a mantê-lo. Se não conseguir arcar com as despesas de manutenção, o tombador — em Taubaté, a Prefeitura — é responsável por também contribuir com os custos. Esta é uma das razões de ser um ato discricionário. O executivo, ao decidir pelo tombamento sabe de antemão que pode ter despesas. Obviamente que é natural que o chefe do executivo ouça a sociedade. Normalmente recorre aos Conselhos de Defesa dos Patrimônios para aconselhar-se. Estes conselhos são o Iphan (federal), o Condephaat (estadual) e o Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Arquitetônico, Artístico, Arqueológico e Cultural. Ocorre que, aqui em Taubaté, este conselho é de caráter consultivo e não deliberativo. Outra coisa, um problema grave deste Conselho de Defesa Taubateano é que ele é composto por sete integrantes, que são indicados entre funcionários da Prefeitura (quatro) e da Unitau (três). Ora, por motivos óbvios não há a independência necessária para suas decisões, visto que é o Prefeito quem nomeia os da Prefeitura e também quem nomeia o reitor da Unitau, que nomeia representantes da mesma. Veja um exemplo: a Praça Santa Teresinha é um bem tombado. Portanto seu uso e quaisquer intervenções devem ser avaliadas pelo Conselho de Defesa do Patrimônio. Acontecem shows, festas, zumbas, festivais, ambulantes, cortes inadequados de árvores e desvio de uso do jardim que colocam a praça numa situação vulnerável. O Movimento Preserva Taubaté tem alertado e denunciado ao conselho sobre os riscos inerentes às atividades predatórias. O Conselho de Defesa emite parecer dizendo que há outros locais mais pertinentes para aqueles tipo de evento. A secretaria municipal envolvida na organização dos eventos e alvarás (representando o executivo) ignora ou questiona e não segue as recomendações do Conselho. Resultado, as gramas são pisoteadas, as árvores depredadas, os pisos acumulam óleos, as flores recebem urina à vontade, os moradores do entorno passam por incômodos desmesurados, o lixo é abandonado na praça, bicicletas, carros, motos, caminhões, trailers e colossais estruturas invadem a praça e… segue a banda. Seguramente isto não aconteceria se tivéssemos um Conselho de Defesa independente, atuante e deliberativo, e com participação da sociedade, porque aí seria respeitado e ignorá-lo seria crime de responsabilidade.

Há compromissos do Prefeito Ortiz Junior sobre esse assunto, que conversamos com ele. Aguardemos.

Paulo Ernesto é engenheiro civil, sanitarista, mestre em Ciências Ambientais e membro fundador do Movimento Preserva Taubaté

Taubaté, a cidade que desconhece seus tesouros

A triste cena que se viu nesta semana na calçada da Rua Visconde do Rio Branco, no casarão dos Oliveira Costa, não comoveu a ninguém, a não ser aos atentos e sensíveis à história de nossa cidade. Para quem não viu e não sabe, os raros azulejos portugueses do século 19 que ornavam toda a parte superior do casarão se desprenderam e ficaram moídos na calçada.

Foto: Cacos dos azulejos do Casarão Oliveira Costa no chão

Um dos motivos para os azulejos — que se mantiveram por mais de 100 anos — caírem, com certeza, é o descuido que reiteradamente o Preserva Taubaté tem denunciado. Uma boate funciona no local com som alto, número elevado de pessoas, com portas e janelas fechadas. A trepidação em conjunto com a umidade, e todo este uso não apropriado do imóvel vêm afetando os materiais usados no século 19, no caso as paredes de taipa.

Foto: Casarão Oliveira Costa, sem azulejos no friso decorativo

Indiferentes, pois ignorantes do tesouro despedaçado, muitos transeuntes passavam por cima como se fossem apenas mais um entulho de nossas sujas calçadas. Triste cidade, triste povo, sem cultura e sem política pública de cultura e preservação de patrimônio. Onde encontrar novos azulejos? Apenas réplicas por encomenda, se é que se chegue a esse nível de detalhe, para recuperar o que se perde de riqueza diariamente em Taubaté.

A omissão de todos, Prefeitura, Conselho de Cultura, Condephaat, Iphan, contribui para uma sociedade alienada, que ignora os tesouros sobreviventes desta terra. Por este motivo pisamos em cima, encostamos barracas, fazemos ligações ilegais de luz, demolimos para fazer estacionamentos e colocarmos mais carros no apertado centro de nossa cidade, de mais de 300 anos.

Quando se trata de expandir a cidade para áreas rurais, sem planejamento e sem um estudo preliminar de impacto ambiental e social, a Câmara Municipal e a Prefeitura são rápidas, votam a expansão a toque de caixa. Tudo isso porque os interesses de empreiteiras e construtoras sobrepõe os interesses da sociedade geral.

Foto: Capela do Pilar

Já em relação ao centro comercial não se pensa em expansão, mas no aproveitamento máximo do espaço, saturado inclusive no que diz respeito à infraestrutura. Novamente sem planejamento, grandes prédios brotam onde antes existia uma singela casa de 100 anos.

Com isso, patrimônios arquitetônicos que ainda conseguem sobreviver parecem afrontar os interesses econômicos e imediatistas. Desta forma, todo o seu entorno que deveria ser protegido, pois está na lei, é poluído e aviltado com construções cada vez maiores e feias, com placas e barracas. Tudo isso para que, parece de caso pensado, aquele prédio histórico desapareça no meio da poluição visual. E as autoridades competentes por esta fiscalização e punição simplesmente não cumprem seu papel.

Foto: Vila Santo Aleixo

Quando nem com isso conseguem fazer o patrimônio desaparecer, criam reformas e restauros que não têm mais fim (porque não tiveram nem o começo). As obras se limitam a colocar tapumes em torno do bem tombado, e lá ele fica por anos se deteriorando.

Alguns exemplos de patrimônio que se encontram nesta situação em Taubaté: Vila Santo Aleixo, Capela do Pilar, Conjunto Casas Pias e até mesmo a Igreja do Rosário.

Foto: Igreja do Rosário

A queda dos azulejos do Casarão Oliveira Costa é apenas mais um  sintoma do que ocorre nesta outrora cidade histórica e que atualmente não passa de uma feia colcha de retalhos feita com os piores materiais do mercado.

Suely Rezende é jornalista, empresária e membro do Preserva Taubaté

A praça do meu bairro

O tempo não é mais o mesmo. Observando as estações climáticas das regiões do Brasil de outras eras não muito distantes, estamos sentindo as diferenças, o drama da seca, tempo irregular com estação de verão de pouca precipitação chuvosa, invernos com “veranicos” e consequente racionamento de água nas torneiras das residências.

As florestas brasileiras estão sendo continuamente devastadas sem que as leis e fiscalizações sejam suficientes para darem um paradeiro no abuso. Em decorrências dessa irresponsabilidade ambiental a natureza dará sua resposta e quem sofrerá seremos nós mesmos querendo ou não.

Nossa cidade de Taubaté infelizmente é de poucas praças e ruas arborizadas. Movido pelo pensamento acima observei na ocasião que o espaço público do meu bairro estava abandonado, sujo, coberto de mato, esquecido pelo órgão público. Aliás, às vezes que algum funcionário da prefeitura vinha aparar a grama do jardim da praça era um desastre para as raras plantas. Por falta de sensibilidade, tato ou até por ignorância, passavam também a máquina de cortar grama nos pés das arvorezinhas plantadas com muito carinho pelos moradores. Para trocar lâmpadas queimadas dos postes ainda entram com caminhões sobre o piso quebrando as muretas dos canteiros, passando por cima das plantas como se não houvesse outra solução mais inteligente para fazer troca de lâmpadas. Iluminação artística gerada debaixo para cima? Nem pensar.

Era visto com pesar o desserviço da administração, uma pena para os voluntários amantes da natureza. Já não bastava a falta de educação das crianças que arrancavam as mudas ou dos adolescentes que quebravam galhos de árvores propositalmente, os vagabundos que a noite emporcalhavam a praça.

Apesar desses contratempos, havia quem remasse contra a correnteza. Sempre um ou outro morador promovia limpeza na praça por conta própria, ou ainda assim, não desistia da necessidade de termos um ambiente mais arborizado, agradável e bonito no bairro. Prosseguiam plantando variadas espécies de árvores nativas, frutíferas que atraiam muitas aves, e cuidando dos canteiros com flores diversas que além de embelezar, proporcionar perfume e o frescor das sombras nos dias ensolarados.

Com a lição ficou demonstrado que não bastava plantar, tinha-se que cuidar. O trabalho de conscientização não parava por aí. Quando uma criança maltratava a planta ou algum desordeiro arremessava restos de lixo no gramado ou passeio público da praça, voluntários da vizinhança antecipavam-se procedendo na coleta do lixo e instalação de uma lixeira com expensas própria.

Exemplos e ações positivas atraem e movem as pessoas. Outros vizinhos aproximavam-se de quem estava cuidando da praça, oferecendo novas mudas para plantar, água para regar, sacos de plástico para retirar o lixo, postando até imagens no facebook repercutindo favoravelmente.

Esse trabalho para conscientização de cuidar, proteger e cultivar o meio ambiente foi estendido para as crianças pela diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental “Dr José Ortiz Monteiro Patto” situada ao lado da Praça Padre Leão João Dehon do Jardim Califórnia.

Espera-se que com esse procedimento proativo na praça de um bairro produza frutos e outros exemplos pelos logradouros da cidade.

Lamarque Monteiro é Tenente Coronel reformado da Polícia Militar do Estado de São Paulo. É escultor, pintor, tecladista e escritor, tendo publicado os livros “Casa de Custódia de Taubaté” e “Casos de Caserna”. Neste texto mostra que a austeridade e dureza exigidas em sua profissão jamais fizeram com que perdesse a ternura e carinho com a vida, a natureza e as pessoas. Lamarque dedica-se também aos serviços assistenciais da Casa São Francisco de Idosos de Taubaté, da qual desde há muito faz parte de sua diretoria.

*O Preserva Taubaté abre espaço em seu blog para todas as pessoas que quiserem expor suas ideias, conceitos e percepções sobre o meio ambiente urbano, natural e artificial que visem a sua visibilidade, valorização e preservação. Participe, você faz parte de sua cidade contate-nos pelo email : preservataubate@gmail.com. Facebook: Movimento Preserva Taubaté

Primórdios da urbanização da Vila de Taubaté

Sabe-se que na História de Portugal houve um período em que o reino português perdeu sua soberania e passou a ser administrado pela coroa espanhola. A essa união dinástica entre as monarquias de Portugal e Espanha deu-se o nome de Domínio Espanhol, permanecendo assim por 60 anos: de 1580 a 1640.

Foi justamente na vigência desse período que a Condessa de Vimieiro, proprietária das terras localizadas no Vale do Paraíba, concedeu as provisões para a colonização de suas terras. Foram três provisões: a primeira em 1628, a segunda em 1636 e a terceira e última em 1639.

Provavelmente, por essa última provisão, teve início o povoado que em 1645 foi elevado à condição de Vila, recebendo a designação de São Francisco das Chagas de Taubaté. “A futura vila foi traçada onde hoje se encontra a parte central da cidade, entre os córregos do Convento Velho e um seu pequeno afluente, o Saguiru”. [1]

Enquanto o modelo do povoamento português era rural e dispersivo, o traçado urbanístico da vila de Taubaté obedeceu “a planta típica hispano-renascentista, concebida segundo um tabuleiro de xadrez” [2], uma vez que ela teve sua origem sob a influência do domínio espanhol.

Pelo croqui abaixo se tem a visualização da implantação da vila de Taubaté:

[3]

Segundo José Bernardo Ortiz, loteou-se “o altiplano com muito senso, como se fora um tabuleiro de xadrez, as ruas dispostas, aproximadamente, sob a orientação de sul a norte e leste a oeste. As primeiras ruas, no sentido sul/norte, foram denominadas por numerais ordinais”.[4]

Tanto como o croqui acima como em todas as fontes que trataram do assunto, estão registradas as seguintes informações:

– a rua de número 1 – corresponderia à atual Rua Dr. Jorge Winther;

– rua número 2 – corresponderia à atual Rua Marquês do Herval;

– rua número 3 – corresponderia à atual Rua Duque de Caxias;

– rua número 4 – corresponderia à atual Rua Visconde do Rio Branco;

– rua número 5 – corresponderia à atual Rua Dr. Sousa Alves.

Essas ruas foram mudando suas nomenclaturas ao longo da linha do tempo, na história da cidade, e os nomes foram os seguintes:

a rua de N.º 1: que em 1700 chamava-se Rua da Banda do Tanque, devido sua proximidade com o Tanque ou Aguada da vila, que existiu nas imediações do Mercado Municipal. E, assim era conhecida até 1821, quando passou a se chamar Rua Sant’Ana – devido à presença da Capela de Sant’Ana, que se localizava no alto dessa rua. Em 1874, mudou novamente seu nome para Rua Dr. Jorge Winther – assim conhecida até nossos dias.

a rua de N.º 2: em documento de 1696, foi citada como a Terceira Rua ou Rua dos Gizes, Rua do Bom Jardim (1821), Rua do Fogo (1845), Rua Municipal (1873), até que, finalmente, em 1880, recebeu o nome de Rua Marquês do Herval – assim conhecida até nossos dias.

a rua de N.º 3: no seiscentismo era conhecida como Segunda Rua; passado depois no setecentismo para Rua da Palha; Rua do Comércio (1821); Rua do Meio (1873/1875) e, finalmente, em 1880, Rua Duque de Caxias – assim conhecida até nossos dias.

– a rua de N.º 4: no seiscentismo era conhecida como Rua das Flores; no setecentismo, Rua Direita; Rua do Rosário (1855); em 1870, uma tentativa fracassada de ser conhecida como Rua General Osório e, finalmente, em 1880, Rua Visconde do Rio Branco – assim conhecida até nossos dias.

– a rua de N.º 5: essa rua vai aparecer no Mapa do Pallière [5] somente em 1821, com a nomenclatura de Rua das Palmas. Posteriormente, recebeu as seguintes nomenclaturas: Rua dos Castelhanos (1854); Rua Domingos Arzão (1873) e, finalmente, em 1874, Rua Dr.Sousa Alves – assim conhecida até nossos dias.

Assim sendo, por essas informações, a disposição urbanística da Vila seria: da atual região do Mercado Municipal subia-se para o altiplano onde se localiza, atualmente, a Matriz e a Praça Dom Epaminondas.

Quem leu atentamente as explanações acima deve ter ficado confuso. Como a rua de N.º 2, (atual Marques do Herval) na documentação consultada aparece com o nome de Terceira Rua; e a rua de N.º 3 (Duque de Caxias) apareceu, na documentação como a nomenclatura Segunda Rua?

Esse questionamento permaneceu como uma incógnita.

Mas a História não tem ponto final! Uma afirmação histórica só persiste como verdadeira desde que nada mais se descubra acerca de sua veracidade.

Entretanto, foi encontrado e pesquisado um documento seiscentista, no Arquivo Histórico Félix Guisard Filho de Taubaté, que veio esclarecer essa questão trazendo uma informação até então inédita: a disposição urbanística da Vila, naquele tempo, era inversa ao que se lê nas fontes bibliográficas.

A rua N.º 1 NÃO correspondia à rua da Banda do Tanque mas sim à Rua das Flores, atual Visconde do Rio Branco.

O documento em questão é uma “Escritura de venda de casas nessa Vila de Taubaté que faz o Capitão Manoel da Costa Cabral ao Capitão Domingos Luiz Cabral”, escritura essa datada de 1698.

Fez-se o traslado e, nos respectivos fólios e linhas, encontrou-se o seguinte:

(…) e, sendo aí, apareceu perante mim dito Tabelião, o Capitão Manoel da Costa Cabral e bem assim sua mulher, e cada um de per si, me foi dito perante as testemunhas ao diante nomeadas e assinadas que eles possuíam nesta dita Vila, na PRIMEIRA RUA que chamam DAS FLORES, (…)

Com essa declaração, vinda de uma fonte primária, datada de 1698, pode-se afirmar, com tranquilidade, que mudou a leitura urbanística da Vila de Taubaté: passa a ser considerada como posição correta aquela que, começando na atual Rua Visconde do Rio Branco desce para a região do atual Mercado Municipal.

Lia Carolina Prado Alves Mariotto é paleógrafa. Por décadas, foi a encarregada da Divisão de Arquivos e Museus de Taubaté. Sob sua orientação, inúmeros profissionais coletaram material para livros, dissertações e teses acadêmicas. É autora de diversos trabalhos sobre a história de Taubaté. Um dos mais importantes foi a elaboração de um levantamento completo e detalhado sobre uma antiga estrada ligando a cidade a Parati (RJ).

[1] Abreu, Maria Morgado de Taubaté – De núcleo irradiador de bandeirismo a centro industrial e universitário do Vale do Paraíba – Editora Santuário, 1985, p 19
[2] Morse, Richard M. – Formação Histórica de São Paulo – Difusão Europeia do Livro, 1970, p29
[3] Muller, Nice Lecocq. Taubaté – Estudos de Geografia Urbana. Separata da “Revista Brasileira de Geografia” n.º 1 – Ano XXVII – Janeiro/Março de 1965. Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Conselho Nacional de Geografia, 1965, figura 12, p 80
[4] Ortiz, Jose Bernardo. São Francisco das Chagas de Taubaté. Livro 2º – Taubaté Colonial. Prefeitura Municipal de Taubaté. “Taubateana” n.º 10, III série – 1988, p 30
[5] Arnaud Julien Pallière – pintor francês autor da primeira planta da Vila de Taubaté, feita em 1821

Vila Santo Aleixo – Um presente muito sério II

A Vila Santo Aleixo, patrimônio histórico de nossa cidade, é tombada pelo município e também, devido à luta do Preserva Taubaté, pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo).

É uma história comprida que será contada aqui, mas vamos direto ao ponto. Descontentes e inconformados com a situação degradante em que se encontrava o imóvel da Vila Santo Aleixo — patrimônio histórico e cultural de nossa Taubaté, tombado pela administração pública desde 1985, que assim reconheceu inegavelmente a sua importância –, decidimos nos movimentar e lutar para que este monumento não viesse a perecer.

Esta luta começou desde 2008. Anos se passaram e voltamos à mesma tecla. Ela pertencia à Unitau, que à época queria aliená-la, vendê-la à iniciativa privada para a construção de duas torres de apartamento, mas mantendo o prédio principal como área de lazer dos edifícios. Para tanto, a universidade queria que a Câmara autorizasse o destombamento. Alguns vereadores estavam caindo na lábia. Despreparados, não sabiam que o tombamento da Praça Santa Teresinha e seu entorno também impede a construção destes prédios.

Depois, a Unitau passou a Vila para a prefeitura, que prometeu mantê-la e não o fez. No governo Roberto Peixoto, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, por solicitação do Preserva Taubaté, moveu uma ação civil pública contra a prefeitura para que providenciasse obras de recuperação. Desde então, estamos em cima da prefeitura para que execute obras e cumpra o acordo. A “coisa” vem se arrastando. Vez ou outra a prefeitura consegue colocar alguma verba à disposição. Muito pouco. O Preserva Taubaté está sempre na cola, cobrando, muitas vezes por solicitação de cidadãos que nos procuram.

Em reunião em 04.08.17, o prefeito Ortiz Junior nos disse que a prefeitura disponibilizaria cerca de R$ 400.000 imediatamente, ou quase. Ao que sabemos, nada de verba ainda.

As fotos que ilustram este artigo podem dar a vocês noção da situação em que se encontra a Vila Santo Aleixo. Iria escrever sobre outro assunto para este blog, no entanto hoje (20.02.18) fomos avisados de que a moto serra corria solta nas árvores do bosque da Vila e lá fomos nós. Inacreditável! Goiabeiras, jabuticabeiras, uvaia e até jacarandá. Serviços realizados por funcionários sem orientação e sem acompanhamento de profissional especializado.

A Vila Santo Aleixo, tenham dó! Pelo amor de Deus! Imediatamente entramos em contato com as Secretarias de Serviços Públicos e de Meio Ambiente, para que cessassem imediatamente esta crueldade! Chegamos a pensar e até imaginar que estes órgãos estão cheios de DENDROCLASTAS* (plagiando Diniz – tem no dicionário). Socorro! Escrevi há tempos que a Constituição Federal estabelece que todos têm direito a gozar do meio ambiente natural, flora, fauna, rios, lagos e mares, e ao meio ambiente artificial também. Aqui incluem-se as cidades e suas obras arquitetônicas, praças públicas, obras de arte, flora e fauna urbana. Nossa Constituição estabeleceu também um “sujeito futuro” com os mesmos direitos que nós, que são os nossos descendentes. Esta cidade é um presente que recebemos e temos que cuidar para que repassemos a eles com o mesmo carinho que fazemos com diversos outros bens. Algo muito sério!!!

*Dendroclasta – adjetivo e substantivo de dois gêneros: que ou quem é indiferente à vida ou à preservação das árvores.

Paulo Ernesto Marques Silva é um dos fundadores do Movimento Preserva Taubaté.

Foto: imagem atual da Vila Santo Aleixo

Foto: imagem atual da Vila Santo Aleixo

Foto: árvore cortada na Vila Santo Aleixo

Foto: árvore cortada na Vila Santo Aleixo

Foto: árvore cortada na Vila Santo Aleixo

Foto: árvore cortada na Vila Santo Aleixo

Foto: imagem da Vila Santo Aleixo antes do prédio ser abandonado

Foto: imagem da Vila Santo Aleixo antes do prédio ser abandonado

Foto: imagem da Vila Santo Aleixo antes do prédio ser abandonado

Renomear ruas, um erro histórico

Estava preparando um artigo para nosso blog, considerações sobre tombamento, quando fui alertado de que estava na onda do Face uma discussão sobre nomes de ruas que foram alterados em Taubaté. Em especial sobre a antiga Av. Cavarucanguera. Interessei-me. O saudoso Dr. Hugo Di Domenico, com quem tive a felicidade de conversar por horas a fio durante um sem fim de ocasiões, contou-me vários episódios de Taubaté, um deles a questão do nome Cavarucanguera. Foi motivo de uma das minhas primeiras crônicas no pasquim do Diniz, Matéria Prima. Depois escrevi em várias oportunidades sobre o assunto da troca de nomes de ruas aqui em Taubaté. Hoje republico um artigo que escrevi há alguns anos para esta nossa Gazeta. Parece que depois de muita luta há faíscas de sabedoria que podem reacender uma fogueira. Também conclamo a participação aqui da Prof. Lia Carolina que tem muito, muito a contribuir sobre as questões relativas às ruas de Taubaté e suas denominações. Vamos lá!

A denominação das nossas ruas deve contar a história de nossa cidade. Rua Quatro de Março, data da libertação dos escravos aqui em Taubaté em 1888. Antes, portanto, do famoso 13 de maio. A Rua do Café comemora o Convênio de Taubaté, de 1906, quando aqui reuniram-se os “presidentes” dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro e elaboraram novas políticas para salvar a economia da cafeicultura. A praça em frente à Capela do Pilar recebeu o nome de Praça do Convênio pois foi ali em frente o local do evento. A Av. Cavarucanguera era uma antiga trilha indígena que passava ao largo de uma plantação dos freis leigos do Convento de Santa Clara, que lá colocaram uma caveira de cavalo para manter longe os maus espíritos e trazer boa colheita. Em tupi, então, Cavaru = Cavalo, Cang = Esqueleto, Guera = O que foi. Aquilo que foi cavalo. Uma aula de tupi! (ver Hugo Di Domenico). Em 1969 mudaram o nome da Rua do Café, que passou a se chamar Marechal Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura militar iniciada nem 1964. Uma bajulação da Câmara. Estas bajulações, adulações e servilismo, aliás, são antigos e costumeiros. A Rua XV de Novembro era a Rua do Príncipe, em homenagem a D. Pedro I, mas logo que proclamaram a república ela passou a homenageá-la. Essas mudanças obscurecem a nossa história. A avenida Cavarucanguera, desde 1969 passou a se chamar Av. Faria Lima. A antiga Rua América, uma homenagem ao nosso continente, hoje é Armando Sales e, crime maior, a Av. Brasil, do Jardim das Nações, virou John Fitzgerald Kennedy, e deixou o bairro cujas ruas homenageiam países pelo mundo afora sem a rua do nosso país!  Incrível. Em 1989 o então vereador Roberto Peixoto, numa atitude exemplar, fez aprovar uma lei na Câmara devolvendo o antigo nome para a Rua do Café. Parabéns! Pasmem, o segundo ditador da era iniciada em 1964 foi homenageado com seu nome, Marechal Arthur da Costa e Silva, tomado a um longo trecho da Rua Engenheiro Fernando de Mattos. O recém publicado relatório da Comissão Nacional de Verdade concluiu o que já fora amplamente divulgado. Costa e Silva, presidente do Brasil entre 1967-69, foi responsável pelos piores e mais vergonhosos momentos de nossa história, pela promulgação do Ato Institucional – AI-5, por torturas e total inobservância dos direitos fundamentais do cidadão. Fernando de Mattos, nascido em Taubaté em 1852, formou-se engenheiro na França, de volta esteve em Jaguarão e Passo Fundo, RS, construindo estradas de ferro, voltou a Taubaté, onde foi jornalista e político combatendo as oligarquias locais, foi escritor, produtor rural, grande empreendedor, abolicionista, delegado de polícia, quando deu atenção especial aos pobres, e foi fundador do Asilo de Mendigos. Foi construtor da CTI, criou a Companhia de Navegação do Paraíba, projetou e tentou implantar estradas de ferro unindo Taubaté ao Sul de Minas e, sua obra maior, dotou Taubaté de um sistema de abastecimento de água potável cuja concepção alcança os dias atuais. Tem muito mais sobre este maravilhoso taubateano. A cidade de Taquari, terra natal de Costa e Silva, pôs abaixo um monumento em sua honra. Em Taubaté, Fernando de Mattos não tem monumento, mas tinha uma rua de porte que lhe foi parcialmente usurpada. É hora de desnomearmos a rua do cruel marechal, que merece o esquecimento e não homenagem, e devolvê-la a quem realmente merece, Fernando de Mattos. Na verdade é tempo de devolvermos o nome a todas as ruas renomeadas erroneamente nesta nossa Taubaté, cada vez mais sem sua história. Seria oportuníssimo que a Câmara Municipal corrigisse erros históricos. Aproveito para esclarecer que o Artigo 68 da Lei Orgânica do Município de Taubaté, de 3 de abril de 1990, preconiza: “É vedada a alteração de denominação de via e logradouro público, exceto para restabelecer denominação anterior”. Portanto, não há o que temer. Vamos fazer justiça!

Paulo Ernesto Marques Silva é um dos fundadores do Movimento Preserva Taubaté.

A música erudita e o patrimônio histórico de Taubaté

Uma gota num oceano. Mas antes uma gota do que a aridez.

Em 2015 conheci o grupo Preserva Taubaté através da querida amiga Bia Nader. Iniciou-se então uma feliz parceria entre cidadãos taubateanos que amam a música erudita e o patrimônio histórico de Taubaté.

Sonhos comuns, ainda não plenamente realizados: dirigir o olhar da população, muito mais ainda de seus líderes políticos, para seus artistas músicos eruditos e para os belos edifícios históricos da cidade, muitos totalmente esquecidos. Assim começou o Circuito Erudito no Patrimônio Histórico.

Recém chegada então em Taubaté, inicialmente conheci estes queridos sonhadores, como eu: Regina Morgado, Beta Tadeucci, Suely Rezende, José Pedro Pereira, Pedro Rubin, Ângelo Rubin, Mariana Tchmola (Almanaque Urupês)… e outros que foram se juntando a cada ação com a proposta do projeto.

Eu, cantora lírica, nascida nesta “terra de Lobato” (emprestei a expressão) e de outros grandes artistas, estive ausente daqui por cerca de três décadas, morando em outros lugares, principalmente em São Paulo, onde tive toda minha formação musical e exercício profissional como cantora lírica no Coro Lírico do Teatro Municipal de São Paulo durante 20 anos.

Feliz parceria e para mim, tanto tempo longe de Taubaté, grande oportunidade artística e pessoal para que, principalmente eu, artista nascida aqui, voltasse meu olhar e minha arte para nosso patrimônio histórico. Faço aqui um “mea culpa”.

Percorri a cidade com a querida Regina para olharmos os locais e a euforia tomou conta de mim. Queria fazer concertos mensais em TODOS os locais visitados. Não, isso não foi possível.

Fizemos (apenas!) quatro eventos em 2015: Capela de São Vicente de Paulo, as Casas Pias – 19/01; Edíficio Urupês – prédio do Tesourinho – 27/02; Salão Nobre do Departamento de Ciências Sociais e Letras – Unitau – 01/04; e Capela Santana – Igreja Greco Melkita Católica – 22/10.

Lembro-me que o primeiro evento, na Capela Casas Pias, foi organizado e marcado em poucos dias. Desafiador! Mas que prazer imenso foi ver a capela lotada de cidadãos taubateanos ávidos pela arte de nosso patrimônio histórico e musical. Que alegria interpretar o grande mestre Orestes Penzo, não taubateano nato, mas de coração, italiano radicado aqui, mestre de capela no Santuário Santa Terezinha, professor de música, maestro, compositor… acompanhada ao cravo do amigo Darwin Ronconi.

“Soltar” minha voz em lugares “esquecidos” ou não mais vistos pelos cidadãos taubateanos.

“A voz é o tato à distância”. Foi mágico e desafiador tocar as pessoas com a música erudita e direcionar seus olhares para o nossos tesouros históricos.

Ainda faltam outros tantos prédios com os quais ainda sonho… sonhamos… mostrar junto à música erudita: Capela do Pilar, Vila São Aleixo, Convento Santa Clara, Pátio da Faculdade de Arquitetura, e outros dos quais já não tenho mais a lista que fiz no dia de meu primeiro passeio com Regina Morgado.

Quatro apenas, mas fizemos! Uma gota, uma semente!

A música no Circuito Erudito não seria possível sem a parceria com grandes músicos, amigos, desta cidade. Darwin Ronconi, Denis Pinheiro, Camerata Zajdembaun, Lucas Félix, Marcelo Küpper, Aquillis Skupien, Juscilei Martins, William Mariano. Uns já profissionais atuantes, outros jovens talentos iniciando sua trajetória na música erudita.

Ainda somos artistas quase anônimos nesta terra que não é só de Lobato, nem só de Mazzaropi. É também terra de grandes músicos, que ensinam em nossa Escola Municipal de Artes “Maestro Fêgo Camargo”. Professores e músicos atuantes na voz, violino, piano, cravo, órgão, violão, sopros…enfim, todas as possibilidades que a música erudita tem para oferecer e que estão aqui, hoje, agora, em Taubaté. Profissionais e jovens talentos em formação.

Creio sim que houve frutos para a música. A partir do Circuito Erudito e com o olhar atento de nosso atual secretário de Cultura, Marcio Carneiro, pude criar e implantar a Série In Concert, iniciada em 2016 com apenas 2 concertos, realizada com sucesso em 2017 com 6 concertos e que continuará em 2018, firme e ampliada.

Nosso patrimônio, seja prédio ou música erudita, ainda carece de olhares amigos, apoios e espaços para que a população tenha, inclusive, a opção de escolhê-los entre suas preferências em futuras pesquisas artísticas.

Quatro apenas, mas fizemos! Uma gota, uma semente!

“Lo que brilla con luz propia, nadie lo puede apagar. Su brillo há de alcanzar la oscuridad de otras costas.”

Leda Monteiro é cantora lírica e professora de canto

Movimento Preserva Taubaté

Taubaté foi fundada em 1645 pelo sertanista Jacques Félix. Há 372 anos. Há quanto tempo foi o primeiro assentamento indígena não sabemos exatamente. Após o descobrimento, em 1500, a verdadeira colonização do Brasil iniciou-se em 1532, com Martim Afonso de Souza, que fundou aquela que seria a Vila mais antiga do Brasil, São Vicente. Martim Afonso era o donatário da capitania hereditária do mesmo nome e foi sua herdeira, sua neta Mariana de Sousa Guerra, a Condessa de Vimieiro, quem ordenou a Jacques Félix que explorasse os sertões e fundasse nossa cidade. Taubaté foi porto de partida para a colonização além do interior de São Paulo e também das Minas Gerais. Foram taubateanos ou sertanistas, que daqui partiram, que fundaram Campinas e dezenas de cidades em Minas Gerais, entre elas São João Del Rey, Mariana, Sabará e Caetés. Taubaté também fez parte de ramal do conhecido Caminho Real, e pesquisas recentes, desenvolvidas pela Profa. Lia Carolina, confirmam a existência de um caminho entre o Bairro de Registro à Parati, como também rota para escoamento do ouro vindo das Minas. Aqui também tivemos uma Casa de Fundição do Ouro. Taubaté foi palco dos ciclos da cana de açúcar, do ouro e do café, e guarda como testemunhas maravilhosos marcos históricos como fazendas, igrejas, prédios públicos e particulares, praças e paisagens. Grandes acontecimentos históricos nacionais aconteceram aqui ou envolveram residentes ou filhos de Taubaté. Aqui foi celebrado em 1906 o Convênio do Café, com a presença dos chamados, à época, presidentes dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Nossa história é riquíssima, mas infelizmente muito pouco foi preservado a contento. Pior, o que restou do Patrimônio Histórico de nossa cidade está abandonado. Sem políticas preservacionistas, nossa cidade tem seus prédios históricos em completo estado de deterioração. As instituições culturais inexistem ou são apáticas. Sem planos e metas. As administrações públicas, proprietárias de diversos bens tombados e corresponsáveis pela fiscalização e manutenção de todos os bens tombados de nossa cidade, permanecem inertes, com raras atitudes proativas. A Cúria Diocesana, grande proprietária de bens tombados, a maioria deles construído com dotes de cidadãos taubateanos, mantem-se alheia e reticente. Desde 1988, com a nossa Constituição Cidadã, o meio ambiente urbano e em especial bens tombados deveriam ser tratados e respeitados como o meio ambiente natural. Estarrecidos frente a este quadro caótico, cidadãos taubateanos reuniram-se em 2004 e formaram uma organização que denominaram MOVIMENTO PRESERVA TAUBATÉ. Seus fundadores e ativistas são cidadãos taubateanos que colaboram gratuitamente em prol de seus ideais. Os objetivos deste grupo são de promover a preservação dos bens tombados como patrimônios históricos materiais e imateriais de nossa cidade e a utilização do ambiente urbano de modo sustentável, visando o bem estar do cidadão, a preservação de nossos costumes e nossa história. São nossas metas:

-Fiscalizar e denunciar o descumprimento das leis protetoras dos bens tombados;

-Incentivar, discutir e participar da implementação de políticas preservacionistas, dando suporte técnico à administração municipal;

-Participar e ocupar cargos nos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Urbano, Meio Ambiente e Cultura;

-Participar das Audiências Públicas pertinentes ao patrimônio Histórico e Meio Ambiente;

-Ouvir, orientar e levar aos poderes públicos as solicitações e ambições da sociedade relativas ao meio ambiente urbano;

-Subsidiar a Defensoria e o Ministério Público na abertura de inquéritos e Ações Civis Públicas em defesa do Meio Ambiente Urbano e Patrimônio Histórico;

-Divulgar via a imprensa as ações necessárias para a preservação do Patrimônio Histórico e aquelas efetivamente executadas;

O trabalho do Movimento Preserva Taubaté, durante os últimos 15 anos, é conhecido e reconhecido pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), pelo IPHAN (Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional), pela Administração Pública Municipal, pela Cúria Diocesana, pela Defensoria Pública, pelo Ministério Público do Estado de São Paulo e por grande parte dos cidadãos taubateanos. Procuraremos, a partir deste espaço, levar ao conhecimento público nossas atividades e também reportar a situação dos bens tombados de nossa cidade mostrando quem faz e quem não faz. Temos boas e interessantes histórias. Aguardem!

Paulo Ernesto Marques Silva é um dos fundadores do Movimento Preserva Taubaté.